A Organização do Conhecimento (OC) foi historicamente construída sob um pilar positivista (SMIRAGLIA, 2002), fortemente orientado, após a década de 1960, por um movimento afirmação e consolidação da Ciência da Informação enquanto campo científico (ARAÚJO, 2018). Esse processo disseminou à falsa premissa de neutralidade da OC, segundo o qual seus sistemas e processos estariam isentos de posicionamento político. Em sentido diverso, a reflexão crítica contemporânea entende e tem demostrado que não há neutralidade (OLSON, 1998; MILANI, 2015) uma vez que a OC, em suas escolhas conceituais, terminológicas e estruturais, inscreve e reproduz marcas políticas.
Adotando o pressuposto da não neutralidade da OC, questiona-se, como os regimes de verdade podem ser visualizados enquanto disputas políticas no contexto do passado ditatorial brasileiro? O objetivo geral pretendido é compreender o processo de elaboração de sentido sobre o passado da Ditadura Militar, a partir do caso do Tesauro da Escola Nacional de Administração Pública que incluiu o termo “Revolução de 1964” em substituição ao termo “Golpe militar de 1964”.
Trata-se de uma pesquisa descritiva e interpretativa (DOMINGUES, 2004). É uma pesquisa do tipo documental, por compreender o tesauro como uma fonte de informação primária. Os procedimentos de coleta de dados envolveram duas etapas: i) coleta terminológica no Tesauro da ENAP; e ii) solicitação de informação via o Portal Fala.BR, via Lei de Acesso à Informação, questionando os critérios e procedimentos adotados para inclusão terminológica do termo objeto de pesquisa. Os procedimentos de análise de dados envolveram a análise do discurso (FOULCAULT, 1987) sobre o tesauro e a análise de conteúdo (LAVILLE & DIONNE, 1999) da resposta ao pedido de informação.
Quanto a análise dos dados, evidenciou-se que o discurso indica que as superfícies de emergência foram a ascensão de discursos de ódio da extrema direita e motivadas pelo Governo de Jair Messias Bolsonaro na Presidência da República; as instâncias de delimitação demonstraram uma incoerência entre termo/conceito e a nota de escopo; e as grades de especificação destacam a oposição entre verdades e significados. A análise da resposta ao pedido de acesso à informação demonstrou que, aparentemente, não houve uma estratégia bem definida quanto a construção de sentido sobre o termo analisado. Tratou-se do tesauro como um instrumento meramente padronizador da linguagem, muito se aproximando de uma perspectiva de neutralidade dos SOCs; de minimização do impacto dentro no acerto, em que somente dois livros estavam indexados com o termo no acervo, um deles que assumia a instauração do regime por meio de um golpe militar e o outro por meio de revolução; de um processo difuso de construção do tesauro; e de um erro terminológico.
Em termos conclusivos, apontou para uma tentativa, visto que há uma discrepância terminológica, de heroísmo quanto ao passado e uma minimização das graves violações de Direitos Humanos. Quanto a operacionalização desses sentidos, verificou-se o acionamento da garantia política, mesmo que inconscientemente, e de aceno institucional às ideologias políticas, mas com pouca ou quase nenhuma estratégia de construção de sentido para corroborar com o regime de verdade que o Governo empreendia.
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)